terça-feira, 28 de março de 2017

Um certo dia

Certo dia trombei com uma senhorinha intragável. Daquelas que, se tragadas, rasgam as entranhas feito ácido acético. Pois bem, tentei-lhe explicar que o ano tinha doze meses e que não era sua intragância (ora, vejam só!) que faria o tempo ser diferente.
Resultado: tive indigestão e insônia.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Resenha: Jogo Perigoso (Gerald’s Game) – Stephen King



Resenha: Jogo Perigoso (Gerald’s Game) – Stephen King


Dizer que Stephen King é o rei (com o perdão do trocadilho) da literatura de terror da segunda metade do século passado, e, porque não, do início desse século, é tão lugar-comum quanto o Maine em quase todos os seus livros. O terror psicológico, com foco nas pessoas em detrimento das situações, tem conquistado leitores por décadas, e é justamente em Jogo Perigoso que King foca todo seu sadismo numa história que ocorre quase que unicamente na mente da personagem principal. E quando eu falo “quase unicamente” é “quase unicamente” MESMO! Sério, se o livro tiver 4 cenários (fora da mente da personagem) diferentes, é muito. Isso deu a Jogo Perigoso o apelido de “o livro infilmável de Stephen King”, o que não parece ser verdade, já que há boatos de que, enquanto vos escrevo essa resenha que vós leis, já estão filmando o maldito filme (série, na verdade)! Enfim, infilmável ou não, não significa inresenhável, então vamos analisar essa obra do mestre do terror.


Publicado nos EUA em 1992 e trazido ao Brasil pela Objetiva em 2000, Gerald’s Game é um livro de suspense e terror. Nele, acompanhamos Jessie Burlingame, uma mulher de meia idade que não se acha mais tão bonita quanto antes e que, para agradar o marido, Gerald Burlingame, aceita os “joguinhos” sexuais dele (basicamente bondage [se não souber o que é isso, procure na wikipédia, não no google imagens, por favor!]). Esses joguinhos, de início, são inofencivos (a coisa se resume a lenços), mas, ele tem planos mais, digamos, ambiciosos. O livro começa com os dois no quarto da casa de verão (a boa e velha casa do lago, isolada de tudo e todos) e Jessie já algemada à cama. Então, Gerald aparentemente sobre um ataque cardíaco e cai (morto?). É aí que começa o desespero da protagonista: algemada num quarto com um homem morto e longe da civilização.


O livro não é longo, porém, se você não gosta de romances psicológicos, pode ser beeeeem maçante. Quase tudo se passa no quarto com Jessie algemada, nessa situação, ela começa a rememorar situações de sua infância, traumas e, porque não, o motivo que a fez aceitar e ser tão submissa ao marido por tantos anos de casamento. Além de conversar com as diversas vozes em sua cabeça (sua mãe, sua amiga de faculdade, ela mesma quando jovem, etc).


Não há muito o que se discutir no que diz respeito as personagens, porque a única personagem real (na maior parte da narrativa) é Jessie e ela funciona muito bem, causa empatia e evolui no decorrer da trama. Entretanto, uma menção que tem que ser feita é a Ruth Neary, a tal amiga da faculdade, uma feminista militante que não tem a menor paciência com as atitudes de “fraqueza” de Jessie.


No frigir dos ovos, Jogo Perigoso é um livro insuportável para quem não gosta de romances psicológicos, mas, para quem gosta de profundos mergulhos na mente humana, é um prato cheio de sadismo, traumas de infância e o mais puro horror psicológico.


(Ah! Como é insuportavelmente bom ser humano!)

Nota: 7.5/10

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Elevador - Conto - Terror


Ele saiu do quarto para o corredor do hotel cantarolando algo que havia acabado de inventar. Era animado e gostoso tanto de assobiar quanto de ouvir de seus próprios lábios. Soava meio como Elvis meio como Johnny Cash, se é que isso era possível. Girou o cartão-chave na mão direita enquanto balançava as chaves do carro distraidamente na esquerda.
O corredor era largo e ele passou pelas outras portas fechadas até o elevador. O mostrador digital acima do arco de entrada do fosso indicava que o transporte estava no T, térreo. Ele apertou um botão em forma de seta apontada para baixo que imediatamente se iluminou. Ouviu um zumbido suave enquanto as correntes eram movidas, engrenagens giravam e cabos de aço eram erguidos e, é claro, a morte se aproximava.
Ele esperou, agora, cantarolando. Minha nossa, aquele som era realmente bom! Pensou em, assim que voltasse ao quarto, pedir o celular da mulher, que era bem mais moderno que o seu, e tentar gravar, ao menos o que lembrasse – e esperava lembrar tudo – da melodia do assobio. Poderia até pedir a um amigo do trabalho (que costumava escrever poesias no Ensino Médio) para criar uma letra para sua música. Se vivesse para voltar ao trabalho massante: oito horas diárias em frente ao monitor, amém.
Houve um barulho de sino quando o elevador chegou. A abertura das portas revelou um casal de adultos – ambos com bronzeados recentes – que o olharam desconfiados.
Alguns segundos se passaram antes dele ter a presença de espírito de pôr a mão no sensor do elevador, impedindo-o de fechar.
Descendo? – perguntou.
A expressão desconfiada do casal misturou-se à incompreensão.
Descendo? – repetiu. – O elevador?
Como os rostos continuaram pateticamente contraídos com sobrancelhas erguidas, olhos arregalados e bocas quase abertas, ele começou a apontar para baixo.
Descendo?
O casal finalmente pareceu entender. O que era ótimo, porque a canção – ele sentia – estava começando a fugir-lhe como a vida foge do paciente moribundo.
Non. – disse a mulher. – Arriba.
Ele entendeu e assentiu. O homem despediu-se da mulher dizendo algo numa língua que obviamente não era espanhol e saiu do elevador, desaparecendo numa curva do corredor, mais a frente. As portas do elevador fecharam novamente, encerrando a mulher sozinha em seu interior silencioso. Antes que um lado da porta encontrasse o outro, ele viu a luz lá dentro falhar, mas só por um segundo. Viu, também, os olhos da mulher, muito azuis, fitarem os seus, não mais em desconfiança ou incompreensão, ou espanto, mas apenas em pânico. Puramente pânico.
A música quase fugiu, mas ele agarrou-a pela memória como um fio de vida. Não pensou no medo nem no pânico naqueles olhos azuis estrangeiros.
Primeiro, assobiou e depois cantarolou novamente, sentiu o coração desacelerar e a respiração voltar ao normal (nem ao menos percebeu que eles haviam acelerado, mas haviam). Essa passou perto.
Ele não era músico nem nada, e sabia apenas arranhar o violão (o que não fazia há uns quinze anos, tinha dificuldades especiais no fá e no si maiores), porém, já começava a pensar naquela canção como a obra de arte de sua vida. Quem sabe, poderia vendê-la para uma propaganda (combinava bastante com a propaganda de cigarro, caso não houvessem proibido-as, há alguns anos), ou poderia ser a abertura de uma novela, quem sabe? O céu é o limite.
O mostrador na parede acima anunciou que o elevador subira até o sétimo andar. Ele não percebeu o número falhar e sumir quando o sete surgiu. Em seguida, os números começaram a diminuir.
O zumbido suave e embalado de maquinaria cessou quando o número era “3”. A essa altura, a canção já era doce em sua boca.
Quando as portas se abriram, todo o sangue cobrindo as paredes metálicas não era nada. Todo o cheiro cobre de sangue fresco não era nada. As tripas escorrendo no espelho do fundo não eram nada. O cérebro esmagado a um lado, muito menos. Os olhos muito azuis arrancados e jogados a um canto, fitando o teto, não era nada. Também não era nada, nem tragédia, nem infortúnio, o corpo destroçado da mulher deitada no piso do elevador, ou seu braço decepado que tombou para o corredor. As portas automáticas bateram nele e se abriram. Voltaram a tentar fechar. Se abriram de novo. Fecharam. Abriram. Fecharam. Abriram. Fecharam…

A grande tragédia, a grande lástima, o grande infortúnio, desventura, calamidade, a grande fatalidade foi que, com essa visão, a canção se fora.

sábado, 27 de agosto de 2016

Review: O Chamado do Cuco - Robert Galbraith

Why were you born when the snow was falling?
You should have come to the cuckoo’s calling
Christina Rossetti (Londres, 1830 - Londres 1894)

Por vezes, e esse é o caso de Stephen King, por exemplo, um escritor iniciante se utiliza de pseudônimos para se proteger de um possível fracasso. Noutras, o artifício é usado para desvincular uma nova obra de um sucesso anterior, este, é o caso de Robert Galbraith, pseudônimo de J.K. Rowling, sim, aquela mesma de Harry Potter.


Fica evidente e compreensível, logo de início, que Rowling quisesse esconder seu nome da capa do novo livro, O Chamado do Cuco. De seu lançamento até alguns meses depois, o livro, sob o pseudônimo, havia vendido pouco mais de oito mil cópias. Isto é, não seria best-seller nem aqui no Brasil (onde é preciso vender dez mil cópias para tanto). Após a descoberta - meio acidental, meio "não conte a ninguém, ok?" - o livro destronou o então top 1 da lista de mais vendidos nas livrarias inglesas, Inferno de Dan Brown (o que me deixa feliz: saber que uma das minhas escritoras preferidas destronou o Inferno, que metáfora! Rá! Na sua face, Brown).

Enfim, mas vamos ao livro.

As críticas foram ótimas. Sim, ótimas MESMO ANTES de descobrirem que Galbraith era, na verdade, Rowling. Ok que, tendo vendido menos de dez mil cópias, grande parte das pessoas que leram o livro deviam estar realmente procurando pelo gênero: romance policial. E, realmente, O Chamado do Cuco é um ótimo thriller policial, com todos os elementos que tornaram o gênero clássico: um investigador com problemas pessoais, um caso que mexe com o leitor e, claro, um suspeito a solta (ou não).

O Chamado do Cuco gira em torno da morte de Cuco, apelido de Lula Landry, uma supermodelo fotográfica de muito sucesso que, segundo as investigações policiais, cometeu suicídio. O irmão de Lula, John Bristow, um rico advogado, contrata Cormoran Strike, um detetive particular e ex-membro das Forças Armadas Britânicas para investigar a morte da modelo. Bristow obviamente não engoliu o veredito dos investigadores policiais. O drama, então, gira em torno tanto do suposto crime quanto da vida conturbada de Cormoran Strike.

Muito próximo a falência, com um casamento desmoronando e recebendo cartas ameaçadoras de um maluco quase todos os dias, Strike é, sem dúvida, um dos melhores e mais bem construídos personagens de Rowl... Digo, de Robert Galbraith. Mesmo sendo ranzinza e tendo as habilidades sociais de uma colher de chá, Strike induz bastante empatia do leitor e seus dramas pessoais casam perfeitamente com o caso que está investigando. Como se não bastassem suas contas, ele ainda recebe a inesperada ajuda da eficiente secretária temporária Robin Ellacott.

Robin é, sem dúvidas, outra obra prima da mente de Galbraith. A secretária do despedaçado escritório de Strike é proativa, inteligente, curiosa e forte. Tem seus próprios problemas pessoais (um noivo que não gosta muito de Strike, mesmo sem o conhecer, por exemplo) e não é raro nos encontrarmos torcendo por ela e para que ela passe de temporária a efetiva, no enredo do livro. Galbraith nos dá a impressão, inclusive, que ele mesmo não sabia se a manterá no "elenco fixo" da obra, já que isso é desenvolvido durante a história.

Apesar de ter sido descoberta ainda no primeiro livro da (até agora) trilogia do detetive Cormoran Strike, Rowling continua assinando a série com o pseudônimo e afirma que assim será para todo o sempreamém.

O Chamado do Cuco é um ótimo livro, de uma ótima escritora, que, se pensarmos bem, sempre deu um toque de "romance policial" na saga Harry Potter (temos o primeiro livro, aonde tudo gira em torno de 'quem está fazendo essas coisas ruins?', isso se repete no segundo e culmina nas infindáveis discussões de Orkut: 'Snape, bom ou mal?'). A história engana o leitor quanto a seu desfecho até o último instante e... bom, não vou dar nenhum spoiler aqui, porque, se spoiler é ruim, spoiler de livro policial é o cúmulo do túmulo!

Ah, e se tiverem um dinheirinho sobrando, comprem a versão capa dura. Porque se um livro tem uma versão capa dura você DEVE comprar a versão capa dura e tenho dito!

Nota: 8/10


Revivência

Pensando em reviver isso daqui com resenhas e opiniões minhas de livros lidos e essas coisas...

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Criação e propósito

“O leão andava de um lado para o outro na terra nua, cantando a nova canção.” Crônicas de Nárnia, capítulo “A Criação de Nárnia”. – C.S. Lewis

“No princípio criou Deus os céus e a terra.” Gênesis 1:1

Quando, em meio a sua existência, a raça humana esqueceu-se que cada traço, cada detalhe na obra esplendorosa do universo tem a assinatura de seu Criador e serve a Seus propósitos? Como confundir a Gioconda de Da Vince? Como crer que não são os traços dele que contornam a sorridente enigmática e que houve alguma pincelada despropositada? Como não poderia ser van Gogh o pintor de seu autorretrato? Ou que Laplace, o criador da transformada matemática que leva seu nome, tenha, inconsequentemente, deixado cálculos errados a esmo?

Se não são desleixados e despropositados os criadores humanos, muito menos Aquele que está acima de todos eles, com seus pinceis, lápis, aquarelas e cálculos elaborados, está o Criador de tudo. E como não podemos ver sua impressão digital em cada quadrante do universo? Como não podemos ver Seus propósitos em cada célula? “O conselho do Senhor permanece para sempre”, diz o salmista, “e os intentos do Seu coração por todas as gerações”. Os intentos. Os propósitos. Eles estão lá, tão comoventes e escandalosamente brilhantes que, ironicamente, há quem não os veja.

“Acaso, ó Criador, pedi que do barro
Me moldasses homem? Porventura pedi
Que das trevas me erguesses?”
Paraíso Perdido, Livro X – John Milton

Ora, os intentos e propósitos do Senhor, prevalecem, permanecem. Não é o tempo que os apagará. Suas marcas continuam a reverberar. A criação do Criador tem propósito.

E qual o propósito de criatura, se não demonstrar, louvar e contemplar a grandeza e majestade de seu Criador? “Tudo que tem fôlego, louve ao Senhor” (Salmos 150:6). A criação não teria motivos de existir, se não fosse o louvar Àquele que a criou. As estrelas do céu louvam a Deus. As profundezas do mar e o espaço profundo louvam a Deus. Como se a Mona Lisa sorrisse para da Vince. Mas isso não bastava. A criação estaria incompleta sem um autorretrato.

“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança...” Gênesis 1:26

A criação que espelha o Criador, somos, não apenas poeira de estrelas, mas somos, sobretudo, criados para sermos semelhantes a Ele. Sejamos.